quarta-feira, 16 de abril de 2008

Traumas de Infância (I)

A mãe nunca deixa a pequenina ter o cabelo grande. Não, não, não! Tá muito grande isso aqui! Você ta parecendo uma maluca com esse cabelo desgrenhado. Durante seis anos seguidos a mãe olhou torto para o cabelo grande. No natal ganhou o castelo de Grayskull. No aniversário uma bola de futebol. Na páscoa ganhou ovo de páscoa, não que isso faça muita diferença, mas era um ovo de chocolate branco e todos sabem como ela gosta de chocolate branco. Comeu ele inteiro e lambuzou a boca e as mãos. Comeu todo ele como a pequena de Alvaro de Campos comeria. E não houve mais metafísica no mundo que o desembrulhar do papel laminado, o barulho do papel laminado saindo de cima do ovo, e o chocolate na boca da menina feliz. Na escola se tinha peça ela era o macaco, era o arbusto,o burro, nunca a princesa. A professora decidiu então que todas as meninas iriam ser flores. Já os meninos seriam animais. Sorteou: Bernardo vai ser um Leão. Marcela vai ser uma margarida. Igor um tigre. Camila uma rosa. Daniel um touro. Magdalena vai ser uma Maria-sem-vergonha.

- Mentira, não existe essa flor. Não existe Maria-sem-vergonha.
- Existe sim, ali no jardim do pátio tem um monte.
- Mentira, mentira, eu não quero ser Maria-sem-vergonha

E correu para debaixo de uma mesa e ficou chorando. Consolo nessas horas não ajuda. Nunca ajudou. A mãe a deixava parecendo com um menino. Na escola era arteira e recebia bronca dos professores. O castelo de Grayskull tinha um he-man, e ela fingia que era a casa da barbie. O he-man era a barbie. A bola de futebol era a lua. Magdalena chorava sozinha pois queria ser uma princesa como as outras meninas.

Completados 7 anos a Mãe decidiu fazer uma grande festa. O pai pagaria é claro. Ficou em casa imaginando como seria, o vestido, a dança, tudo mágico. Visitou o avô e ele era um homem muito caprichoso, tinha me prometido uma coroa de princesa. Ela teria pedras preciosas e seria toda de prata, só de imaginar era um sonho. Cheguei na casa do vô e ele estava empenhado no quarto. Perguntei o que fazia e ele escondeu. Ainda não estava pronta, mas pelo visto ficaria linda. Tentei olhar escondido para ver como ficava. Calma menina, ainda falta um bocado, deixa eu terminar, não olha antes que se não dá azar. Pensei que se a coroa fosse tão maravilhosa quanto imaginava, o vestido seria, e sorria sozinha e pulava pela casa. Nunca havia sido tão feliz. Vou ser uma princesa. Vou ser a princesa mais linda do mundo. E pediu para a irmã fazer uma trança mas ela não conseguiu, o cabelo era curto demais. E sorriu que não teria problema, nada poderia ser um problema para ela naquele dia. Naquela noite.

Era uma sexta e chegando em casa correu para o quarto procurando o vestido. Manhêê, cadê meu vestido de princesa. Cadê o meu vestido?

Na cama uma camisa listrada e uma bermuda rasgada. Manhêêê, cadê o meu vestido? Cadê o meu vestido?

A mãe no quarto,tentando compreender o que a filha falava. Manhêê cadê meu vestido?

- Que vestido querida?
- Meu vestido de princesa!
- Do que você está falando, que vestido de princesa?
- Pra minha festa hoje.
- Querida.
- Cadê meu vestido mãe...?
- Não tem vestido, mas, olha só, tem uma roupa de pirata super legal que a mamãe comprou pra você!

Era possível ver a lagrima nascendo nos olhos de Magdalena. Um berro. Não quero ser pirata, eu quero ser princesa. Corre e se tranca no banheiro, chorando. Continua no banheiro. Chorando. Magdalena é a pessoa mais triste do mundo. Quer morrer.

- É mentira, né, mãe? O vô tava fazendo uma coroa de princesa pra mim, eu vou de princesa, não vou?
- Não, eu não comprei vestido . Você sempre adorou piratas, é muito legal sua fantasia vem olhar querida!

Chora

- Abre essa porta vai menina, não fica assim, a gente dá um jeito.
- Não quero ir de pirata, não quero ir de pirata.
- Você pode ir com a roupa de pirata e a coroa de princesa.
- Não quero, não quero!

Chora.

Algumas horas depois aceita, vai com a cara vermelha e emburrada, uma camisa listrada e uma calça rasgada, um tapa-olho preto e a coroa mais linda que já fizeram em todo o universo.

Danilo pergunta:
Cê tá fantasiada de quê Madá?

Chora.

Sem comentários: