segunda-feira, 19 de maio de 2008

Traumas de Infância (II)

Olha a cabeleira do zézé, será que ele é, será que ele é. Todo mundo se fantasia de mulher no carnaval, é pro bloco das piranhas. Uma fantasia de Madona. Tem peitos e é toda dourada. Uma peruca loira. Muito foda. Uma criança de 9 anos se fantasiando. Carnaval. Amigos todos no bloco. Bloco de cidade pequena. O carnaval é sempre casa dos avós. Cidade Pequena. É sempre amigos transitórios. Cidade Pequena. E Daniel gosta de passar as férias lá e brincar na piscina, e chupar picolé, e pique-esconde com os amigos, e andar a cavalo, e subir em arvore, e tomar banho de cachoeira, e. A minha fantasia pro bloco vai ser foda. A mais foda de todas. Arranjei uma roupa igual a da madona, cês vão ver.

Certa vez, um pouco mais novo, havia perdido uma aposta com a sua irmã. Apostou que Carol não conseguiria pular mais longe que ele, conseguiu. As clausulas eram claras, não havia dúvida. Uma peruca de cabelo chanel e desfilar pela rua voltando do colégio. Menina seu cadarço está desamarrado. São gêmeas? E até que era uma menina bem bonitinha. Somos sim. Um sorriso era a constatação da felicidade. Dias depois a peruca na cabeça, pose na frente do espelho, um susto, a mãe o pega em flagrante. Ninguém diz nada. Daniel gostava de se vestir de mulher.

- Menino, que que é isso, se vestindo de mulher?

Ele corria para o banheiro e se trancava. Se perguntassem de novo desconversava, fingia que não aconteceu. Mas agora era carnaval, no carnaval pode, todo mundo faz. Ninguém iria julgar.

- Menino, que que é isso, se vestindo de mulher?
- É pro carnaval, todo mundo se fantasia de mulher no carnaval, vou pro bloco das piranhas, Vó.

A avó chocada. Pede ao garoto que espere. Anda de um lado ao outro da casa, fala com o avô. Anda mais. Volta.

- Vem cá, garoto. Tira essa roupa de mulher. A vovó trouxe uma fantasia legal do batmam pra você.
- Não quero fantasia do batman. Quero minha roupa da Madona!

Insiste. O garoto grita. Chama o avô. Eles brigam. Mandam trocar de roupa. Tiram a força. Daniel chora. O primo entra, sai. A irmã ouve escondido na porta. Colocam a roupa do batmam. Daniel grita e chora. Esperneia. Sente raiva, a roupa do batman é feia, mal feita. A camisa é de regata, horrível. Não vai sair de casa daquele jeito. Liga para a mãe, Soluçando. Chora e geme ao telefone. Magdalena não entende uma palavra. Manda chamar a avó.

- O que foi que houve Mãe?
- Seu filho que quer sair vestido de mulher pela rua.
- É carnaval mãe, deixa de bobagem.
- Não é bobagem, você quer que seu filho vire…
- Ah, mãe, não me vêm com essa não, você me vestia de menino e não deixava meu cabelo crescer quando era criança, e nem por isso eu virei lésbica. Vai a merda. E se ele virar, que seja, não têm problema nenhum.
- Olha só minha filha, quando ele estiver sob minha guarda, eu que decido, e está decidido, neto meu não se veste de mulher.
- É, nem filha.

Daniel não saiu aquela noite, ficou chorando na cama. Tirou a roupa do batmam e tentou rasgar, não conseguiu. Socou o travesseiro. Gritou. Mordeu. Dormiu.

Lá fora tocava uma marchinha de Carnaval e os amigos dançavam e cantavam jogando serpentina. Todo mundo vestido de mulher. Daniel tapou a cara com o travesseiro pra não ouvir.

Depois disso nunca mais quis passar o Carnaval com os avós.

2 comentários:

Anónimo disse...

coitado do Daniel. Que merda, ele vai virar um atirador tipo COlumbine, quem mandou reprimirem o menino.

Cedric Aveline disse...

ele vai acabar roubando calcinhas para usar e queimando as da avó.